Manejo da depressão em pacientes com doenças cardíacas

Depressão no paciente com Doença Cardiovascular

A depressão apresenta prevalência global estimada de 4,4%, correspondendo a aproximadamente 322 milhões de indivíduos. Trata-se de um relevante problema de saúde pública, associado a maior incidência de doenças cardiovasculares e aumento da mortalidade.¹ 

A sobreposição entre depressão e doenças cardiovasculares

As doenças cardiovasculares (DCV) podem desencadear impacto significativo na saúde mental, especialmente após eventos agudos, como síndrome coronariana aguda ou arritmias, que podem gerar respostas emocionais intensas, como medo de recorrência, ansiedade e estresse. Mesmo sem diagnóstico formal de transtorno mental, indivíduos com DCV podem apresentar queda no bem-estar e maior vulnerabilidade psicológica, favorecendo o desenvolvimento de depressão maior e ansiedade.¹,²

A prevalência global de depressão em pessoas com DCV é estimada em cerca de 18%, sendo mais comum em mulheres e idosos.¹ Fatores de estilo de vida, como tabagismo, consumo de álcool, inatividade física e dieta inadequada, além de comorbidades como diabetes e hipertensão, contribuem para essa associação e aumentam o risco cardiovascular.¹

A sobreposição entre depressão e doenças cardiovasculares mostra que o impacto dessa condição ultrapassa a saúde mental. Em 2019, ela ocupou o segundo lugar entre as principais causas de anos vividos com incapacidade (YLDs) e o 13º entre os anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs)

A coexistência com doença arterial coronariana evidencia uma interação complexa, na qual o transtorno atua como fator de risco psicossocial independente para piores desfechos cardiovasculares. Como desdobramento dessa relação, alterações na regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, hiperatividade simpática e mudanças plaquetárias contribuem para o agravamento de ambas as enfermidades.³

Nesse cenário, o manejo adequado da depressão torna-se fundamental para mitigar impactos cardiovasculares, sendo os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) reconhecidos como opções terapêuticas eficazes e seguras, com potencial de reduzir morbidade e mortalidade nessa população.³

Tratamento da depressão em pacientes com DCV

O papel dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) em pacientes com depressão e doença cardiovascular tem sido consolidado por evidências robustas. O estudo Enhancing Recovery in Coronary Heart Disease (ENRICHD) demonstrou que o tratamento adequado da depressão pode modificar o risco de eventos cardíacos, incluindo a redução de novos episódios de infarto do miocárdio.³

De forma complementar, o estudo Sertraline Antidepressant Heart Attack Randomized Trial (SADHART) destacou a relevância do manejo farmacológico ao evidenciar que a ausência de tratamento da depressão em indivíduos com cardiopatia está associada a maior mortalidade.³

Evidências sobre o uso de ISRS e benefícios cardiovasculares

Uma revisão sistemática recente reuniu 12 estudos publicados entre 1999 e 2021, totalizando 2.767 participantes com diagnóstico de transtorno depressivo maior e histórico ou risco de doença cardiovascular.³

Os resultados indicaram que o tratamento com inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) esteve associado a:³

  • melhora consistente do humor em nove estudos, avaliada por escalas como Escala de Avaliação de Depressão de Hamilton (HAM-D) e Inventário de Depressão de Beck (BDI);
  • aumento da qualidade de vida em dois estudos, medido pelo SF-36;
  • melhorias em parâmetros cardiovasculares, incluindo aumento da dilatação mediada por fluxo da artéria braquial, aumento do desvio padrão dos intervalos NN (RR), diminuição da pontuação da doença cardiovascular aterosclerótica e da espessura íntima-média, além de reduções em biomarcadores inflamatórios (IL-6 e PCR).

O impacto do manejo adequado na qualidade de vida e na sobrevida

Complementarmente, um ensaio clínico randomizado e controlado com 500 pacientes com transtorno depressivo maior (TDM) e insuficiência cardíaca demonstrou que aqueles tratados com ISRS apresentaram menores taxas de eventos cardiovasculares adversos, incluindo morte, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, agravamento da angina e início de insuficiência cardíaca congestiva.³

Comparações adicionais mostraram que os pacientes tratados com essa classe apresentaram probabilidade reduzida de infarto agudo do miocárdio em relação a não tratados ou usuários de outras classes de antidepressivos

Estudos adicionais sugeriram indícios de uma discreta diminuição no risco de acidente vascular cerebral isquêmico. Apesar de resultados positivos, nem todos os estudos confirmaram essa associação de forma consistente.³

Mecanisticamente, esses benefícios parecem estar ligados tanto ao efeito dos ISRS na regulação da ativação plaquetária quanto à melhora dos sintomas depressivos, sendo esse último apontado como o fator provável. Outro ponto de atenção é que a interrupção abrupta da terapia pode estar associada a risco transitório aumentado de infarto, possivelmente devido a sintomas de abstinência, como tontura, fadiga e ansiedade.³

Esses achados indicam que os ISRS configuram uma opção terapêutica promissora, com benefícios que ultrapassam o manejo da depressão e se refletem também nos desfechos cardiovasculares.³

Viatris Connect: suporte científico para decisões médicas

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Referências:

  1. BUENO, H. et al. 2025 ESC Clinical consensus statement on mental health and cardiovascular disease: developed under the auspices of the ESC Clinical Practice Guidelines Committee. European Heart Journal, [S. l.], 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehaf191.
  2. LAM, Raymond W. et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. The Canadian Journal of Psychiatry, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 1-47, 2024. DOI: 10.1177/07067437241245384. Disponível em: https://doi.org/10.1177/07067437241245384 . Acesso em: 30 out. 2025.
  3. SEIFOURI, Kiana et al. Sertraline in depressed patients with or at risk for coronary heart disese: a systemic review. American Journal of Cardiovascular Disease, v. 14, n. 6, p. 318-329, 2024. DOI:ttps://doi.org/10.62347/AXZC9187.
  



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